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Palestra: Sophie Calle

Sábado, 11, no Teatro do Sesc Pompéia, a plateia estava em êxtase por ter a oportunidade de dialogar com a artista plástica francesa Sophie Calle. O bate-papo teve início às 15h e durou pouco mais de duas horas. Mal sabiam os presentes que algumas perguntas não deveriam ser feitas a Calle. Pelo menos, foi o que revelou ao blog da exposição o professor das faculdades de Artes Plásticas e Comunicação e Marketing da FAAP (Fundação Armando Alvares Penteado) Ronaldo Entler, que acompanha a produção da artista desde a década de 90.

Entler formulou uma série de perguntas com seus alunos e a nomeou como "Dez perguntas sinceras para não se fazer a Sophie Calle". Motivo? Tensões e estranhamentos desnecessários que poderiam não ser respondidos por ela. Na seleção estão questões como "Sophie Calle cultiva a possibilidade de estar na mídia e de ver sua experiência tratada como folhetim?" e "Que idade tem Sophie Calle? O que ela fez não soa um pouco adolescente?". Durante a palestra da artista, o público, no entanto, ateve-se a outros tipos de questionamentos, e a conversa rendeu boas doses de confidências, como a de suas incursões como dançarina de striptease.

Calle relatou de forma breve, porém profunda, como iniciou seu trabalho em 1979. Contou sobre a viagem que realizou durante sete anos pela Europa. No retorno à França, não reconhecia mais as pessoas na cidade onde morava. Sem ânimo e sem amigos para sair, a artista dedicou-se então a uma arte inusitada: seguir pessoas.

Dali em diante, o acaso tomou-lhe pelo braço em Paris e não a largou mais. Decidiu acompanhar um homem durante um dia, mas o perdeu de vista. Horas mais tarde, o encontrou em um lugar público. Achou que esse era um sinal e começou a segui-lo por toda parte. De Paris a Veneza. "Não sabia por que realmente estava fazendo aquilo. Tomei notas, tirei fotos e decidi fazer um livro", explicou. "Suite Vénitienne" (Suíte Veneziana), de 1979, foi seu primeiro projeto. O homem só percebeu a presença de Calle ao término da viagem. "Ele me olhou, perguntou por que eu estava lá, e eu não dei tempo para ele reagir. Fui embora", lembrou a artista.

A partir disso, se seguiram outros projetos, como convidar pessoas para dormirem na sua cama por um período de oito horas, ser seguida por um espião contratado pela mãe (a pedidos da artista), compor um retrato do caderno de endereços de um homem --de forma anônima-- no jornal francês "Libération", perguntar sobre beleza para deficientes visuais, dormir no topo da Torre Eiffel, entre outros. Para ela, essas situações arbitrárias são uma maneira de ver as emoções. Se você parar, corre o risco de ser assassinado pelo outro.

Histórias reais

"Depois de ter seguido pessoas e de ter sido acusada de invasiva, eu quis voltar a câmera para mim e falar de eventos que haviam marcado a minha vida. [O livro "Histórias Reais" ] É um trabalho onde eu conto coisas sobre mim, de fato". O título ao qual se refere é o primeiro da autora publicado no Brasil.

A ideia de escrever a obra surgiu durante algumas sessões de psicanálise que Calle fez. O pai achava que ela tinha mau hálito, e a mandou a um médico geral. A artista, com 30 anos na época, decidiu ir, mas não sabia que se tratava de um psicanalista. "E quando eu disse a ele que meu pai havia se enganado, ele disse 'você sempre faz o que o seu pai manda?'. E aí, frequentei algumas sessões de psicanálise um pouco ao acaso", contou. Calle até tentou seduzir o profissional contando suas experiências inusitadas.

O livro traz o episódio do mau hálito e outros textos muito curtos, com cerca de dez linhas. Em alguns, ela levou meses para chegar a um estilo enxuto e dizer o máximo com o mínimo de palavras.

Outra história pessoal contada na obra é intitulada como "O nariz". Quando tinha 14 anos, seus avós queriam que ela operasse o nariz. Porém, dois dias antes de realizar o procedimento, o médico que faria a cirurgia, o famoso doutor F., se matou. "E é por isso que eu continuo com esse nariz. Vocês veem aí [fotos do rosto de Sophie são projetadas em dois telões para o público] que eu tenho muitos problemas com o nariz", satirizou.

Artista plástica ou escritora?

"Eu me sinto artista plástica. O que me interessa profundamente é a parede. O texto também, mas sempre precisei de imagens, nunca fiz um projeto sem imagens", afirmou. Ainda no percalço íntimo da artista, o público perguntou se o escritor francês Grégoire Bouillier se sentiu afetado pelo projeto "Cuide de Você", inspirado em um email no qual termina o relacionamento com Calle. A autora explicou que o fato de o ex-namorado ter se apresentado com ela em Paraty --na Flip 2009 (Festa Literária Internacional de Paraty)--, mostra que não foi um ato de guerra. "Eu acho que não voltarei com ele para um palco. O projeto terminou em Paraty, não há mais razão de ser do ponto de vista psicológico ou artístico. É um encontro espiritual. Era uma carta de um homem que queria partir", disse.

A versão brasileira da exposição é totalmente diferente do que ela havia mostrado antes. Segundo a artista, a mostra está mais livre quanto à forma. E as mulheres, que dão corpo ao trabalho, a ajudaram a compreender e a interpretar a carta de rompimento. "Minha resposta foram as 107 mulheres. Eu fiz o que ele [Grégoire] me pediu. Eu cuidei de mim, é culpa dele. Não posso fazer nada", brincou Calle. Ela ainda ressaltou que é artista e não simplesmente uma mulher que sofre.

Da relação estreita com a família, falou sobre os últimos minutos de vida da mãe, os quais procurou gravar tanto na memória quanto em vídeo. Dos avós, guarda a implicância deles com seu nariz, e o pai, o responsável pelas conquistas e pelo amor a tudo que faz. "Eu me perguntei se eu não vou deixar de ser artista quando meu pai morrer. Quando ele morrer, talvez eu pare", tenta responder a si mesma e a todos.

A mostra "Cuide de Você" ocupará o Galpão do Sesc Pompéia até o dia 7 de setembro de 2009, com outras oficinas e atividades.

Sophie Calle tem suas obras licenciadas pela AUTVIS, no Brasil.

Autor: Paula Dume para a Livraria Folha

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